Independentemente do contexto, fracasso é uma palavra que dificilmente nos deixa indiferentes. O medo do fracasso é da natureza humana, e é comum que prefiramos não falar sobre fracassos se pudermos evitá-los. Quando pensamos nisso em um contexto profissional, o fracasso pode ter ramificações claras e imediatas para a reputação e progressão na carreira – e como qualquer outro profissional – e os pesquisadores não são imunes a esse medo do fracasso.
Parte dessa abordagem ao fracasso na pesquisa se deve ao fato de que o sistema de pesquisa tradicionalmente recompensa aqueles que são os primeiros a relatar uma descoberta em detrimento daqueles que são os segundos, e aqueles que relatam um resultado positivo em detrimento daqueles que relatam um negativo.
No entanto, a pesquisa geralmente envolve uma abordagem de tentativa e erro e uma infinidade de descobertas negativas, ou protocolos que exigem solução de problemas antes de serem ajustados.
Assim, experimentos “fracassados” são comuns; mais do que é frequentemente reconhecido, publicado ou mesmo relatado em eventos científicos. Muito esforço e muitas horas de meticuloso esforço de pesquisa não são reconhecidos pelas atuais estruturas de avaliação de pesquisa, resultando em um considerável desperdício de resultados de pesquisa potencialmente ainda importantes.
‘Como definimos sucesso?’
Sabemos que a ciência não tem um ponto final definido, que a colaboração deve ser uma parte fundamental do processo de pesquisa e que os cientistas precisam pensar sobre como eles comunicam seu trabalho, particularmente para aqueles não familiarizados com a pesquisa. Um aspecto fundamental do sucesso é trabalhar em algo pelo qual você se sente apaixonado e está ansiosa para compartilhar.
Um tema comum que a classificação binária de sucesso versus fracasso é um tanto injusta. Um resultado deve ser marcado como fracasso apenas porque é negativo e não foi publicado? O desenvolvimento de um caminho aberto mais colaborativo para a pesquisa, com mais abertura em todas as etapas do processo, visa capturar as etapas incrementais que compõem o processo de pesquisa.
O compartilhamento de resultados negativos e nulos também deve ser encorajado, como um afastamento de estruturas que dependem de fatores de impacto para avaliar a qualidade da pesquisa. Os desafios com o sistema de pesquisa atual, reconhecem os pesquisadores principais (PIs) como os “sobreviventes” do sistema, com apenas alguns alcançando o topo de uma estrutura de carreira piramidal íngreme.
A força motriz para entrar na pesquisa deve ser um interesse genuíno pela ciência e não o objetivo de de eventualmente se tornar um PI. Há muitos outros caminhos de carreira disponíveis após um doutorado e que as habilidades adquiridas podem ser usadas em muitas outras áreas, como no setor privado, por exemplo. O treinamento de alunos de doutorado deve incluir aspectos que vão além da publicação e deve equilibrar isso com o desenvolvimento de comunicação e outras habilidades.
As recomendações mais importantes para uma evolução constante e equilibrada na carreira de pesquisador, a meu ver, poderiam ser as seguintes:
1- Mais apoio para pesquisadores em início de carreira, para que eles possam ter uma visão mais ampla e informada de sua carreira e das opções após o doutorado;
2- Mais reconhecimento pela ampla gama de diferentes papéis que os cientistas desempenham além da publicação de resultados de pesquisas – por exemplo, atividades de revisão por pares, mentoria, etc,;
3- Fornecimento de crédito para registro e relato de solução de problemas, para qualquer trabalho que não siga o formato de publicação convencional, mas que ajudaria outras pessoas envolvidas em pesquisa relacionadas;
4- Mais treinamento para aquele em um caminho de pesquisa, para ajudá-los a desenvolver uma variedade de habilidades transferíveis e reconhecer o valor dessas habilidades;
5- Maior diversidade – maior diversidade só pode ser benéfica para impulsionar mudanças na forma como o sucesso é definido.
Alcançar esses objetivos e ajudar a influenciar as visões atuais sobre falhas em pesquisa representa uma tarefa formidável, mas – assim como a própria ciência – a mudança progride um passo de cada vez.
À medida que buscamos iniciativas em direção a essa mudança, vamos nos lembrar da definição de sucesso de Arthur Smith: ‘Sucesso é o que te faz feliz’.
Carmino Antônio de Souza é professor titular da Unicamp. Foi secretário de saúde do estado de São Paulo na década de 1990 (1993-1994) e da cidade de Campinas entre 2013 e 2020. Secretário-executivo da secretaria extraordinária de ciência, pesquisa e desenvolvimento em saúde do governo do estado de São Paulo em 2022 e atual Presidente do Conselho de Curadores da Fundação Butantan. Diretor científico da Associação Brasileira de Hematologia, Hemoterapia e Terapia Celular (ABHH) e Pesquisador Responsável pelo CEPID-CancerThera-Fapesp.
Fonte: Hora Campinas