Giovanni Guido Cerri – A Atenção básica pode ser a única saída  

Na visão do ex-secretário estadual de Saúde, a implantação do sistema até hoje foi positiva, chegando em todos os municípios e estados

Entrevistas

O ítalo-brasileiro Giovanni Guido Cerri pode dizer que conhece na prática a situação do nosso Sistema Único de Saúde, já que foi secretário estadual da Saúde de São Paulo entre 2011 e 2013. Especializado em Radiologia, Cerri é também professor titular pela Faculdade de Medicina da Universidade de São Paulo (FMUSP) – onde já foi diretor, além de ter comandado o Hospital das Clínicas da FMUSP. Também passou pela direção do Instituto do Câncer do Estado de São Paulo “Octavio Frias de Oliveira” (Icesp).

BALANÇO

O SUS é um projeto bem pensado em sua estrutura e o seu conceito é moderno. A implantação até hoje foi positiva, chegando em todos os municípios e estados.

Há a necessidade de aprimoramento, mas o sistema representou uma grande conquista dos brasileiros. Como regra geral, a estrutura existente não atende de forma adequada a população. Mas a desigualdade é o grande problema, resultando em migração de pacientes e sobrecarga em muitos lugares. Existem muitas deficiências tanto na atenção primária quanto na emergência e na resolutividade da atenção secundária.

Outra coisa que não deu certo foi a implantação do Cartão SUS, que não atingiu abrangência nacional e não tem portabilidade de informação.

“O SUS foi pensado numa concepção avançada, mas não foi atrelado como financiar o sistema, de onde viriam esses recursos”

FINANCIAMENTO

O que o SUS se comprometeu a dar, de forma constitucional, é muito mais do que os recursos existentes permitem.

Houve descompasso entre o que foi aprovado e o financiamento – isso gerou o que estamos vendo hoje: muita gente sem conseguir atendimento adequado e o quadro se agravando em regiões mais pobres. Essa equação ainda não foi resolvida.

A população vem envelhecendo rápido e os recursos já insuficientes não têm crescido proporcionalmente.

JUDICIALIZAÇÃO

A interpretação do Judiciário que a Constituição “dá tudo para todos” é equivocada.

Nenhum sistema de saúde moderno de países desenvolvidos permite o que está ocorrendo no Brasil. Através de ações judiciais, se consegue medicamentos dos mais variados a custos altíssimos. Seria importante que o SUS tivesse protocolos estabelecidos e quem quisesse um atendimento não contemplado ali – como tratamentos no exterior ou experimentais – financiasse de outra maneira.

ATENÇÃO BÁSICA

Ela é fundamental, a base da pirâmide. Quanto maior a eficiência nessa área, menor a quantidade de pacientes recorrendo a hospitais e prontos-socorros, diminuindo o custo da Saúde. A porta de entrada, então, tem de ser a atenção básica. Mas qual o problema dela? Não se coloca o investimento necessário.

É importante que o Brasil forme profissionais focados na atenção básica; temos que valorizar o médico e os profissionais de Saúde, que devem ser bem pagos. Essa tem de ser a política prioritária do SUS e da Saúde no Brasil nas próximas décadas. Talvez seja a única forma de reduzir os custos.

MÉDICOS EM LOCAIS DISTANTES

Essa é uma questão que retrata o descaso de políticas públicas do Brasil em relação à atenção primária. Precisamos ter nos municípios um atendimento primário que funcione, ou seja, profissionais de

Saúde que possam atender e resolver 90% dos casos na porta de entrada. Por que eles não estão nas áreas mais remotas?

Pois não há infraestrutura e nem remuneração adequada. É fundamental criar um plano de carreira em Medicina, bem como existe no sistema Judiciário. E isso não irá custar muito. Pelo contrário: irá representar enorme economia, pois terá resolutividade na ponta, evitando a política de hospitalização e de emergências que existe no Brasil.

INGERÊNCIAS POLÍTICAS

Isso é realmente péssimo. Os programas vão mudando e se gasta dinheiro em projetos que são descontinuados. No Brasil, a Saúde é tratada como questão política, quando na verdade deveria ser uma área estratégica de Estado, que não pode sofrer ingerências das mudanças políticas de Governo. O loteamento de cargos públicos dentro da Saúde (e outros setores importantes, como a Educação) é um câncer no Brasil. Muitos dos indicados políticos não têm conhecimento ou capacidade e acabam desenvolvendo programas com intuitos apenas eleitorais.

GIOVANNI GUIDO CERRI
ESPECIALIDADE – Radiologia
CARREIRA – Secretário estadual da Saúde de São Paulo (2011 e 2013)
Professor titular da Faculdade de Medicina da Universidade de São Paulo (FMUSP)

Entrevista publicada na Revista da APM – edição 696 – janeiro/fevereiro 2018