A relevância e a urgência do confinamento

Por José Luiz Gomes do Amaral, presidente da Associação Paulista de Medicina, e Álvaro Nagib Atallah, diretor de Economia Médica e Saúde Baseada em Evidências da APM

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Por José Luiz Gomes do Amaral, presidente da Associação Paulista de Medicina, e Álvaro Nagib Atallah, diretor de Economia Médica e Saúde Baseada em Evidências da APM

Na última terça feira, 23 de março (391º dia da pandemia de Covid-19 no Brasil), nos deparamos com a tragédia sanitária de 298.676 mortes1, que agora se sucedem a uma média móvel de 2.364 ao dia, sob um índice de isolamento de 43% no estado de São Paulo2. São contados mais de 10 milhões de sobreviventes e estimados mais de 1 milhão de pacientes em acompanhamento1.

Desconhecemos o número dos que contraíram a doença e são assintomáticos, o que dificulta a estimativa real da letalidade desta doença. Se considerássemos apenas os diagnosticados, teríamos 298.676 (mortes) x 100 / 12.130.019 (casos confirmados)1, o que resultaria em uma taxa de letalidade de 2,46%.

Vários outros fatores trazem incertezas a esta estimativa: o número de assintomáticos, provavelmente é muito maior que o de diagnosticados (5 a 7 assintomáticos para cada sintomático)3; a subnotificação dos casos é maior que a subnotificação das mortes; e as mortes pós-tratamento (provavelmente associadas a outras causas, mas fortemente influenciadas pela Covid-19) – estima-se, por exemplo, que 25% dos egressos do tratamento intensivo venham a falecer nos meses subsequentes à internação4.

Consideradas as informações acima, talvez não seja irreal estimar que mais 50 milhões de brasileiros tenham sido infectados, isso ao custo exorbitante de quase 300 mil mortes. Tem-se daqui a sombria perspectiva de chegar a um milhão delas, caso a situação permaneça inalterada ao longo do ano.

Mas, agora temos vacinas…

Vivemos o 65º dia de vacinação no Brasil, tendo sido parcial (apenas uma dose) ou plenamente imunizados (as duas doses das vacinas aqui disponíveis – Coronavac e Oxford) 15.062.160 cidadãos brasileiros – 3.627.039 deles já com a segunda dose -, em um ritmo ainda incerto de vacinação, muito dependente da disponibilidade de vacinas5.

Considerando o ritmo médio de vacinação atual, que resulta em 55.800 plenamente imunizados ao dia, vacinar todos os 210.000.000 de brasileiros ultrapassaria 10 anos (3.763 dias). Não seria, talvez, necessário vacinar todos nós para interrompermos o curso da pandemia. Sem considerar diferenças na eficiência das vacinas disponíveis, para a interrupção da pandemia, acredita-se que a imunidade coletiva (“rebanho”) abrangendo 70% da população (147 milhões) possa ser suficiente6. No entanto, ainda estaríamos distantes mais de 7 anos da situação desejada.

Há que se ter em mente que 24,2% da população brasileira está compreendida na faixa etária de 0 a 17 anos, portanto, excluída desta fase da vacinação. Mesmo correndo risco menor de adoecerem com maior gravidade (fato que é posto em dúvida com novas variantes), jovens contagiam-se e contagiam em extensão que não pode ser desprezada. Cumpre incluí-los no programa de imunização.

O que significa esperar? Quanto mais tempo se dá ao Sars-Cov-2 para multiplicar-se, maior o risco de variantes determinantes de doença mais graves, ou não preveníveis com as vacinas desenvolvidas para as cepas atuais7.

Se as vacinas correntes demonstraram ser capazes de reduzir a incidência de doença sintomática, restam dúvidas sobre a capacidade que teriam de impedir o contágio. 

Ao longo do tempo, os imunizados tendem a relaxar atitudes preventivas, como distanciamento e máscaras. A ampliação do número de contatos e da exposição decorrente deste comportamento tenderá a facilitar a manutenção da pandemia7.

Entretanto, se o ritmo atual de vacinação é extremamente lento, houve dias em que se vacinou além de 360.000 pessoas, e isso nos dá ideia da capacidade de imunização do Brasil, caso as vacinas não fossem o fator limitante. À época da gripe, chegou-se a vacinar 1 milhão de brasileiros ao dia8, o que, se repetido para o Sars-Cov-2, nos traria a solução em menos de 5 meses. Pois é este o ponto de partida para chegarmos onde queremos.

Chegaremos lá… 

A Fiocruz e o Butantã vêm acelerando expressivamente sua produção. Há outras fontes em prospecção e, talvez em abril, a disponibilidade de vacinas não seja fator limitante no processo de imunização de nossa população.

Mas não será admissível aguardar mais um ano sem outras medidas. Ao ritmo de mais de 2.000 mortes ao dia, em menos de 6 meses, mais que duplicaremos o número de vidas ceifadas.

É mais que evidente a necessidade de ações efetivas voltadas à redução do contágio. O confinamento nos parece sacrifício absolutamente emergencial. Muito recentemente, Portugal, Inglaterra e a nossa Araraquara, demonstraram-no.

Ano passado, vimos que a redução de 12% do índice nacional de isolamento social aumentou em cerca de 50% o número de casos10. De maneira oposta, não nos seria possível reduzir significativamente esta mortandade com um índice de isolamento de 60% ou mais? Em outras palavras, um lockdown levado a sério.

Gostaríamos tanto de ver o ministro da Saúde, governadores e prefeitos, todos ocupados em busca das vacinas e de sua aplicação … Gostaríamos de vê-los de máscaras, implorando à população o dever cívico e humanitário do isolamento…

Gostaríamos de ver cada brasileiro exigindo: “Onde estão nossas vacinas?!”. Estamos confinados, nos oferecendo em sacrifício, defendendo a nossa vida e as dos nossos semelhantes, aguardando por elas!

Referências:

  1. https://covid.saude.gov.br/
  2. https://www.saopaulo.sp.gov.br/coronavirus/isolamento/
  3. https://oxfordbrazilebm.com/index.php/covid-19-qual-e-a-proporcao-de-assintomaticos/
  4. https://saude.ig.com.br/coronavirus/2021-02-21/25-dos-pacientes-intubados-com-covid-19-morrem-por-sequelas-apos-alta.html
  5. https://viz.saude.gov.br/extensions/DEMAS_C19Vacina/DEMAS_C19Vacina.html
  6. https://jovempan.com.br/noticias/mundo/oms-estima-que-70-da-populacao-precisara-ser-vacinada-para-atingir-imunidade-de-rebanho.html
  7. https://www.nature.com/articles/d41586-021-00728-2#:~:text=It’s%20unclear%20whether%20vaccines%20prevent,contract%20and%20spread%20the%20virus
  8. https://saude.estadao.com.br/noticias/geral,no-ritmo-atual-brasil-levaria-mais-de-quatro-anos-para-vacinar-populacao-contra-covid,70003605805
  9. https://agenciabrasil.ebc.com.br/saude/noticia/2021-03/fiocruz-entrega-mais-de-1-milhao-de-doses-de-vacina-partir-de-quarta
  10. https://mapabrasileirodacovid.inloco.com.br/pt/