Janeiro Roxo, mês de conscientização e combate à hanseníase

Anualmente, em janeiro, são promovidas ações de conscientização sobre a hanseníase para marcar o Dia Nacional de Combate e Prevenção, lembrado no último domingo do mês.

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Considerada a enfermidade mais antiga da humanidade, a hanseníase tem cura, mas ainda hoje representa um problema de saúde pública no Brasil. Doença tropical negligenciada, infectocontagiosa de evolução crônica, se manifesta principalmente por meio de lesões na pele e sintomas neurológicos como dormências e diminuição de força nas mãos e nos pés.

Seu diagnóstico, tratamento e cura dependem de exames clínicos minuciosos e, principalmente, da capacitação do médico. No entanto, fica o alerta: quando descoberta e tratada tardiamente, a hanseníase pode trazer deformidades e incapacidades físicas. No Brasil, o tratamento é gratuito e oferecido pelo Sistema Único de Saúde (SUS). Os pacientes podem se tratar em casa, com supervisão periódica nas unidades básicas de saúde.

Anualmente, em janeiro, são promovidas ações de conscientização sobre a hanseníase para marcar o Dia Nacional de Combate e Prevenção, lembrado no último domingo do mês. Conhecida como Janeiro Roxo, a iniciativa busca melhorar o controle da doença por meio da disseminação de informações especializadas e conscientização da população sobre sua gravidade, bem como a necessidade de diagnóstico e tratamento precoces, contribuindo para a redução do preconceito acerca da doença.

Em São Paulo, o período de 27 a 31 de janeiro de 2020 foi escolhido Semana “H” – e vários locais, como prédios, pontes e monumentos, serão iluminados com a cor roxa. Haverá ainda eventos em locais públicos para divulgação dos sinais e sintomas dessa moléstia para a população, e as pessoas com a hipótese diagnóstica serão encaminhadas para as 28 Unidades de referência.

Sobre a doença
A moléstia de Hansen é infectocontagiosa, altamente incapacitante, causada pelo Mycobacterium leprae (Hansen, 1873), que acomete inicialmente a célula de Schwann do sistema nervoso periférico (SNP) – onde se multiplica lentamente, causando inflamação e granuloma intraneural (parestesias, formigamento, dormência…), caindo a seguir na corrente linfática, depois na sanguínea, para após meses ou anos desencadear máculas e outras lesões cutâneas. 

Como o Mycobacterium leprae não atravessa a barreira placentária, nunca nasce uma criança com essa moléstia. Ele é transmitido pelo doente do grupo contagiante, virgem de tratamento ou com tratamento irregular, em especial pelas vias aéreas superiores, mas também por feridas, esperma e secreção vaginal).

Em geral, a doença começa na infância, passa despercebida e costuma ser mais diagnosticada na adolescência ou em adulto jovem. Para fins operacionais, é classificada em dois grande grupos:

1.) paucibacilar (MHPB) – não contagiante (o M. leprae acomete principalmente os nervos [eventualmente, abscesso de nervo, reacional por imunidade celular] e a pele);

2.) multibacilar (MHMB) – contagiante, que constitui 70% dos doentes brasileiros, e acomete todos os órgãos e sistemas, exceto o sistema nervoso central. Polineuropatia periférica, em geral, simétrica, amiotrofias e garras, linfoadenomegalias, artropatias (com falsos exames sorológicos para doença reumática); acometimento nasal, de boca, língua, dentes e gengiva peridentária, laringe e ocular (queratite, iridociclite, glaucoma…); hepatosplenomegalia, nefropatia (insuficiência e até falência); orquiepididimite, vasculite, trombose (em especial, durante episódios reacionais por imunocomplexos); durante a gestação de doente multibacilar:  aborto, natimorto ou nascimento de bebês com baixo peso etc.

O Brasil tem a maior prevalência do mundo, segundo a Organização Mundial da Saúde (OMS) e a Associação Alemã de Assistência aos doentes com hanseníase e Tuberculose (DAHW). Nas Américas, o País representa 93% dos doentes com MH. E em 2018, a OMS declarou que 79,6% dos novos casos de hanseníase foram registrados no Brasil, na Índia e na Indonésia.

A OMS vem trabalhando com os programas de hanseníase desde 1995, para atingir a meta de menos de 1 doente para 100.000 habitantes, com reavaliações a cada 5 anos. Em 2017, enquanto no mundo foram registrados 2,77 doentes∕100.000 habitantes, o Brasil registrou taxa de detecção de 12,9∕100 mil, com maioria já na fase contagiante e com incapacidades. 

O coeficiente de detecção de casos novos diagnosticados com grau 2 de incapacidade teve redução significativa, principalmente nas regiões Sul e Sudeste; já o Norte do País foi a única região com aumento desse coeficiente.

Leontina da Conceição Margarido é doutora em Dermatologia, especialista em Hansenologia, e delegada da Associação Paulista de Medicina

*Com informações da Sociedade Brasileira de Dermatologia (SBD)